sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A história dos meus cabelos crespos

Dentre várias coisas que eu busquei simplificar na minha vida, o cuidado com os meus cabelos é uma delas e é muito importante para mim.

A história que vou contar vai além da simples aparência. É antiga e começa na minha infância. Confesso que eu não gostava dos meus cabelos crespos. Sou filha de mãe de origem portuguesa, com cabelos levemente cacheados, e pai de origem africana, com cabelos bem crespos. 

Eu nasci no meio do caminho. Pele meio clara, meio morena e cabelos bem crespos, como os de  meu pai.

Veja que belezura essas menininhas! Lindas, confiantes e incentivadas por seus pais, aprendem desde cedo a valorizar a própria beleza! Na minha época de criança, infelizmente, isso não aconteceu comigo.

Crédito da imagem : http://delas.ig.com.br/


Eu fui a única menina de cabelos crespos da família. O meu referencial era a família da minha mãe. Eu olhava todos e eu entendia que meu cabelo era diferente. Parte da família é de origem indígena, tenho tias com cabelos lisos e negros como as asas da graúna. Eu olhava para elas, me comparava e desejava ter os cabelos soltos, lisos e compridos também. Só que meu cabelo não era assim.

Parece algo simples, no entanto, não é. Parece apenas aparência, mas vai te falar sobre auto valor e sobre quem você é. Eu não tinha alguém para me dizer que eu era bonita do meu jeito. Então, eu pensava que bonito era o cabelo liso.

Eu queria ter cabelo liso e pedia para minha mãe alisar o meu cabelo, ela não concordava, dizia que eu era muito pequena, e por um bom tempo, eu usava bobs e touca para manter os cabelos meio arrumados. :)

Crédito da imagem : http://www.hojeemdia.com.br/

Passei por situações de racismo na rua em que morava e, também percebia preconceito contra meus cabelos e minhas origens africanas dentro de casa. Quantas vezes eu ouvia comentários assim: "nossa, essa menina até que é bonitinha, mas esse cabelo!", "menina vai arrumar esse cabelo!" Naquela época, significava prender os cabelos. Porque solto virava uma "farofa". E meu cabelo era "ruim"!

Era algo sofrido, eu não me aceitava e só queria um cabelo "bom" para não passar por situações constrangedoras novamente!

Na adolescência, finalmente, procuramos uma cabeleireira para alisar meus cabelos. Eu fiquei encantada com o resultado e feliz, apesar do cheiro desagradável do produto químico! Daí, foram muitos anos alisando os cabelos e escovando toda semana. Creio que cerca de 20 anos.

Crédito da imagem: http://www.cabelocrespoecabelobom.com.br/

Mais tarde, depois dos meus 30 anos, eu percebi as consequências dos processos químicos no meu cabelo e resolvi parar de alisar. Eu queria voltar a ter um cabelo natural. Saber como ele era e aprender como arrumar. Foi um longo processo, cortando as pontas e me empenhando para arrumar o cabelo. Depois de 2 anos, finalmente, fiquei livre da química e tive meu cachinhos de volta. Consegui que ele chegasse quase no ombro. Estava bem bonito!

Sinto que esse processo só foi possível porque eu amadureci, eu me senti mais forte, as situações de racismo já não me afetava tanto e eu queria saber quem sou! 

O cabelo não é só um "cabelo". Deixar os cabelos naturais, apesar da pressão da sociedade para alisar, é resistir aos padrões criados, buscar uma identidade própria, procurar se conhecer mais e se aceitar. Se valorizar e se reconhecer bela.

É muito bom ver mulheres negras, lindas e competentes na mídia, embora, ainda hoje, tenhamos que lidar com o racismo, como aconteceu recentemente com a repórter Maria Júlia e a atriz Taís Araújo. De todo modo é algo positivo, para nós, mulheres negras. Para mim, ter referências na televisão, nas revistas e na internet, me fortalece. Eu consigo ver a beleza e a força dessas mulheres e, assim, eu consigo ver a beleza e a força em mim, também. Eu me sinto mais confiante para usar o meu cabelo como eu quiser e para dá as respostas devidas a alguém que me trate com preconceito.

Crédito da imagem: hellobeautiful.com


Eu pensei que a história acabasse aí, né? Com final feliz. No entanto, nem tudo são flores, neste mundo cabelístico. Durante o processo de cultivar meu crespo lindo por vários anos, eu ia a cada três meses à cabeleireira para cortar os cabelos, em um dia (que não sei onde estava com a cabeça), resolvi que queria fazer algumas mechas loiras nos cabelos. Fiz, ficou bonito. Depois acabei concordando em fazer uma química para soltar os cachos dos cabelos. Pois é, fiz uma escova marroquina nos meus cabelos., algum tempo depois, eu repeti por mais duas vezes. Passado um tempo eu decidi fazer mechas californianas nos meus cabelos sozinha!  Queria ficar igual a moça da imagem abaixo. Fiz, como não sou profissional. Imagina o resultado? Obtive cabelos loiros, ressecados, quebradiços, danificados e elásticos! Morri de medo de que meu cabelo caísse. :(

Crédito da imagem : http://sites.uai.com.br/

Depois da tentativa frustrada de clarear os cabelos, fiz várias reconstruções com queratina para fortalecer os cachos, busquei a cabeleireira para fazer um bom corte (só corte né), e "determinei" que não farei processos químicos nos meus cabelos, por um bom tempo.

Agora, eu estou hidratando e nutrindo os cabelos toda semana, e espero, em breve, ficar livre do restante das mechas loiras que eu ainda tenho nas pontas dos meus cachinhos. Veja minha musa inspiradora, a atriz Sheron Menezes, para me incentivar a manter meus cabelos naturais!

Atualização 06/12/2015: Acabo de tonalizar os cachos, chega de mechas/luzes, cabelos no tom natural agora, castanhos! :)

Crédito da imagem: google


Vamos lá! Rumo aos cabelos 100% naturais novamente! Essa é uma meta para 2016!



7 comentários:

  1. Estou amando essa volta aos cachos de quem tem cachos. Eu não tenho, infelizmente, acho lindo!!! Mas algumas das minhas amigas estão permitindo que seus cabelos, cacheados ou crespos, apareçam, façam volume e chamem a atenção. Coisa mais linda!!! Sofreram porque algumas cortaram curtinho pra tirar química. Mas tá crescendo, e crescendo lindo!
    Vai com tudo nessa! Não desista!

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    1. É lindo ver esse movimento de volta às origens! Vou com fé! Obrigada querida!

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  2. Que lindo relato Andreia! São estas experiências pessoais que chegam mais fundo e nos fazem sem duvida amadurecer. Entendo perfeitamente como foi dificil lidar com o exterior, mas alegre fico por saber que esse nível de se aceitar e se assumir foi mais forte dentro de você!! :-)
    Orgulho de ti!!

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    1. É um movimento que acontece de dentro para fora! Obrigada querida! :)

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  3. Eu tinha cabelo liso e sem volume quando criança, mas não gostava. Ficava cobiçando ter cabelo crespo que nem o de uma colega, me lembro até o nome dela: Valéria. Para minha sorte, na adolescência meu cabelo começou a enrolar. Amei! Por isso nunca alisei. Fizeram escova em mim só duas vezes, mas contra a minha vontade, nem perguntaram antes. Adoro meus cachos e não entendo como alguém pode não gostar de ter cabelo crespo, acho tão lindo!!!

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    1. É tão bom quando estamos satisfeitas com o que somos, não é? É uma questão de amadurecimento, incentivo e amor! Aos poucos o amor pelos cabelos do jeitinho que ele é vai se instalando! obrigada!

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